domingo, 6 de abril de 2008

Algumas características da poesia de Cesário Verde

O Livro de Cesário Verde é uma compilação póstuma de poesias de Cesário Verde escritas entre 1873 e 1886, organizada e posfaciada por Silva Pinto, da qual se fez uma primeira edição, em 1887, para ofertas a amigos do escritor, e uma segunda edição, em 1901, destinada ao público.

A edição princeps de O Livro de Cesário Verde é constituída por vinte e duas composições, repartidas por duas secções, “Crise romanesca" e "Naturais", sem que se saiba se essa divisão obedeceu a indicações do próprio autor ou ao critério do compilador.

Apesar de omitir várias poesias de Cesário contempladas em antologias posteriores, a recolha é representativa das várias tendências convergentes na obra poética do autor.

Baseando-se na representação pictórica e na descrição plástica da realidade, apoiada no predomínio das sensações:

Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!


Neste aspecto, Cesário aproxima-se do Parnasianismo e do Realismo, superando, todavia, a captação fotográfica do real, através de um processo de recriação poética que opera uma transfiguração do imediato:

Subitamente - que visão de artista ! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
(de «Num bairro moderno»).

A estética anti-romântica e naturalista (que pode ser observada nos dois versos que se seguem)

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem

patenteia-se nos motivos da mulher soberba e impassível (nos poemas «Deslumbramentos», «Frígida») da cidade mórbida e industrial («O sentimento dum ocidental», «Num bairro moderno», ambos de influência baudelairiana); na correcção da subjectividade pelo distanciamento e a ironia (poema «Cristalizações»); na visão não convencional do campo, marcada pela experiência pessoal (poemas «Em petiz», «De Verão», «Nós», «De tarde»).

Esta transmudação impressionista ou fantasista da realidade apoia-se num estilo inovador, precursor do Simbolismo, no qual, de entre muitos aspectos, salientaremos o uso da sinestesia, por exemplo nos versos seguintes:

Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura


Mas é igualmente interessante o uso que faz do advérbio ("Amareladamente, os cães parecem lobos"; "Um forjador maneja um malho, rubramente"), da hipálage ("Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia"; "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno") e do assíndeto:

Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

2 comentários:

priecha disse...

Depois de ler este curto texto sobre as características da poesia de Cesário Verde, fiquei com noção de que Cesário Verde era um poéta realista e naturalista! Escrevia tudo o que observava.

João Carlos Costa disse...

Era, de facto, um pouco assim, claro que «filtrado» pelas suas emoções e pelas suas palavras.
Mas é pela perspectiva que confere à Lisboa da sua época, às pessoas com quem se cruzava e observava que Cesário Verde é um poeta genial. E que vale a pena ler.